25
fev

Pérolas do Coletivo

   Postado por: Rubao   em       

Você já andou de coletivo? Eu descobri que a molecada lá em casa mesmo sendo filho de pobre nunca andou de coletivo.  Então resolvi perguntar pra um guri lá da Comunidade se ele sabia o que era andar de coletivo. A resposta: – É andar em grupo tio?

Andar de coletivo pra quem não sabe é andar de ônibus, desses que circulam pela cidade. Perece brincadeira né? Mas quer ver uma coisa – Qual foi a última vez que você andou de coletivo? Pra quem faz muito tempo, a resposta geralmente começa com “Já faz um tempão, mas foi um tempo de muita ralação” e termina com “Bons tempos que não voltam mais”.

Outro dia andando num coletivo e não estava muito cheio, percebi que o motora do dia, não era um cara comum, além de dar sempre uma meia freiada e duas buzinadas pras gatinhas do outro lado rua, o cara usava um óculos de surfista bem extravagante, acho que a cor era amarelo queimado. Há um padrão de uniforme nas empresas de ônibus que é calça preta e camisa azul tipo bata, mas nada que impedisse o motora de usar por baixo e quase que cobrindo todo o uniforme uma camisa de artista, mas artista de verdade lembrando Alípio Martins, Lindomar Castilho, Bartô Galeno ou mesmo Raimundo Soldado (só alguém muito desatualizado pra não conhecer esses ícones da música brasileira) lembrei até de um artista lá da Anápolis que ficou famoso com a música “O seu gato é gay” Seu nome era Ailton José, nome artístico claro, mas ele passou pra lei de crente e como teve uma mudança profunda e  tornou-se um artista de Deus resolveu também mudar de nome, hoje ele é o cantor José Luis, o ex- Ailton José. O cabra cristão é criativo né não?

 Voltando ao motora, ele dirigia conversando com o cobrador, contando vantagem de mulheres sempre olhando no retrovisor e arrumando de cabelo que lhe cobria as orelhas, é impressionante o tratamento que ele dava pra cada moça que subia no ônibus, melhor ainda era a cara das moças depois do Olhar 46 dele, acho que elas não acreditavam. Ele não dizia nada, mas obviamente, se achava. O show saiu barato pra quem tava só assistindo, é como se seu motorista particular fosse um artista do rádio e da televisão.

Fui mais pro meio, e de repente um celular toca ao som de “Festa no Apê”, a moça atende e começa a conversar em voz alta. Ninguém tava a fim de saber da vida dela, mas ela não se tocava e contava tudo, de marido ciumento a visinha fofoqueira. Três coisa me chamaram a atenção: 1º- Por que eu não tenho tanto crédito no celular? 2º- Por que minha bateria não dura tanto? 3º- Graças a Deus eu não sou louco de ficar contando minha intimidade, por “horas”, pra todo mundo. Depois de um tempão de conversa fiada ela deu um  ”tchau…beijo”. Ufa! Agora estou livre pra pensar no que quiser, pensei. Três minutos depois…  “Vai ter festa lá no meu apê” Aí não, isso é tratamento. Fui lá pra trás e sentei quase na ultima cadeira.

De repente começou uma gritaria lá na frente, um susto em todo mundo, mas a paz veio quando percebemos que era um artista ambulante, o cara é muito bom. Depois de chamar a atenção com os gritos ele começou a provocar o motorista dizendo já o viu num programa de TV e começou pedir autógrafo e a pedir que a galera tirasse foto no celular dele ao lado do “artista” motora, além de procurar uma câmera escondida dizendo que devia uma pegadinha . Haha! Aí ele partiu pras imitações das meninas de cada cidade satélite andando em pé no ônibus, ele foi dos setores mais pobres até uma “Patricinha” do Lago Sul, a galera chorava da rir.

Não demorou e ele resolveu mexer com o povão e começou a a cantar e dançar paródias, depois inventou de senta no colo das pessoas, passar flanela na cabeça dos carecas (eu estava de boné) provocou todo mundo até se virar pro cobrador a dar um grito: Juvenal!! Haha! E continuou dizendo que tudo aquilo é pra chamar a atenção dele, que eles eram um caso antigo interrompido por ciúmes, mas ele deveria perdoá-lo. O cobrador não gosta nada, claro! Mas aí é que ele mexeu mesmo, a galera dando risadas e gritos, então, ele pede silêncio e diz bem alto: – Vocês devem estar duvidando de mim, mas eu provo que é verdade, querem ver? O coro unânime grita. Queremos! Ele continua: – Motorista mais galã de Brasília, se esse caso de amor é verdadeiro dê três buzinadas por favor. Haha!! O cara nem esperou e bip, bip, bip. Com essa até o cobrador caiu na risada.

Depois de muita brincadeira ele distribuiu seu cartão pra galera, pediu desculpas por qualquer coisa e disse que era um artista popular que trabalhava em festas de empresas, aniversários, rua, etc. e que sorrir faz bem pra alma, quem da risadas trabalha melhor, vive mais feliz, e que todos deveriam lembrar de agradecer a Deus por ter acordado, por ter um trabalho, uma familia e que as lutas são parte da vida, mas com fé em Deus a gente vence. A galera bate mais palmas e muita gente inclusive eu, colaborou com um real no chapeu que ele passou. Um cara só tinha duas moedas de vinte e cinco centavos e deu, ele perguntou:  – É só isso que vale o meu show seu infame, cinquenta centavos? Foi só mais uma brincadeira.  Ele agradeceu a colaboração é concluiu: – Pessoal, eu trabalho com essa arte de levar alegria há mais de 10 anos aqui em Brasília e graças a Deus o meu tão sonhado reconhecimento chegou, nesse domingo pela manhã eu estarei  às 10h na Globo quem puder me ver pra dar IBOPE eu… A galera interrompe a fala com mais salva de palmas.  – Calma gente, a Globo é uma loja de Materiais de Construção lá na Ceilândia. Fiquem com Deus.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

15
dez

Pra lá de cem

   Postado por: Rubao   em Papo aberto

Esse final de semana realmente foi pra lá de cem, foi tanta coisa boa que teria que matutar as idéias pras escrevê-las numa ordem ou então citar algumas de forma aleatória, e, é o que eu vou fazer agora.

Viajei pras “Antas”, encontrei velhos e bons amigos, sobrinho sangue-bom, visitei um amigo que esteve  muito doente e se recupera de um derrame. Foi muito legal ver a satisfação dele ao nos receber, assistimos até ao DVD do Gregory Isaacs, jamaicano mestre do reggae.

Mas eu fui principalmente pra assistir ao casamento da filha de um amigo meu. Um cara gente fina, do tipo: “Todo mundo fala bem”. Que casamento bacana, vários carecas como eu, muitas pessoas bonitas, velhas amigas já não tão novas, o tempo não perdoa, sou testemunha viva disso. Ali, duas coisas interessantes me chamaram a atenção:

1- Um dos músicos do casamento, velho amigo meu, me chamou e depois do abraço me mostrou outro jovem músico e disse:  “ – Cara, ele ta doido pra te encontrar, tu não vai acreditar o que ele me falou… Quando ele era pequeno o pai dele pegava aula de violão na nossa Escola de Música e como ele gostava de desenhar na sua mesa enquanto esperava, você falou que pra ele ser um grande desenhista teria que ter além do talento uma assinatura de artista e criou uma pra ele. “O cara hoje é artista, pintor e usa a mesma assinatura que você ensinou.” 

Ainda não vi sua arte, mas to de cara até agora, to curioso e certamente vou conhecer melhor o trabalho dele. Meu batimento deve ter ido pra lá de cem.

2- O pai da noiva, meu amigo, visivelmente emocionado e não por menos, em sua fala entre outras coisas disse:  “ Essa é minha filha querida, a primeira, aquela que aprendi a trocar as fraudas, a dar banho, passar talquinho, aquela que me fez amar mais a Deus…” E Olhando pros olhos disse: Eu e sua mãe estamos muito felizes por esse momento, momento que não poderia ser imaginado, até porque eu vivo cada dia intensamente, não deixo que ansiedade do amanhã me tire a paz, mas preste atenção, de hoje em diante, depois de Deus, a pessoa mais importante, aquela que você deve amar mais nessa terra, não é sua mãe, não sou eu, ou as suas irmãs, família, você deverá amar ao seu esposo” E falou a mesma coisa pra ele.

 Foi de prender a respiração, um pai falar uma parada dessa não deve ser fácil. Estamos num mundo em que a frase imediata é: “esposo vira ex-, namorada vira  –ex, sogro vira –ex, cunhada vira –ex, mas pai, mãe, irmãos, não. Esse é o padrão da sociedade moderna onde casar é só uma etapa e a probabilidade de se separar é um fato considerável, e como.  Mas os padrões do meu amigo, pai da noiva, são outros, são profundos, na  cabeça dele essa possibilidade é zero, ele falava com plena convicção de que aquela união pública foi selada primeiro no céu.   Enfim, foi uma das coisas mais bonitas que já ouvi num casamento. Um cara pra lá de cem.

No domingo cedo, eu estava de volta a Brasília pro ensaio final do nosso Musical de Natal. Fizemos uma festa como eu gosto, eu e todo mundo lá da Comunidade. Nada de trenó, chaminé, neve, ursinho, “ Jingle Bells” e olha que eu tenho uma foto ao lado da placa, na esquina onde foi composta essa música nas proximidades de Boston, e tudo começou com corridas de trenós.

Nossa festa teve uma baita produção, até porque um maluco lá levou um caminhão do tamanho daqueles de entregas da Casas Bahia, hehe!! Cheio de equipamentos de som e iluminação, o cara é doido.

Fizemos questão de compor músicas com a nossa cara, com os mais variados sotaques brasileiros, com cavaco, violões, viola caipira, muita percussão e uma linguagem e cenário bem contextualizados pra contar e cantar nossa visão de Natal “O Jesus nascido em Belém (não do Pará, né Bio?) mas bem VIVO entre e em nós” Dessa vez foi tudo filmado e pretendemos futuramente dispor isso em DVD pra que outros usem esse material como ferramenta de propagação do nome do Mestre.

Nota dez pros mais de sessenta envolvidos no Musical que rolou no domingo a noite com direito a reapresentação na segunda, e casa cheia nos dois dias. Vocês não são dez, são pra lá de cem.

Domingo depois da primeira apresentação e da rodada do pizza na casa do diretor musical, cheguei em casa super feliz, tomei um banho e liguei a televisão. Oscar Niemayer estava sendo entrevistado. O homem que segundo um apresentador da Band é tão conhecido lá fora quanto Pelé, o gênio das curvas que segundo seu sobrinho, ficou muito feliz quando o médico liberou que ele voltasse a fumar sua cigarrinha (Cigarro cuja mortalha é um fragmento de folha de fumo. Aurélio), o cara que desenhou Brasília, a cidade que encanta o mundo por sua arquitetura, e avenidas e concretos e tesourinhas e a Catedral de Brasília, uma de suas melhores obras. Quem vem a Brasília não pode deixar de ir à Catedral e tem um macete curioso pra curtir a acústica da igreja: Duas pessoas, uma em cada extremidade da parede encostando o ouvido naquele pequeno vão à meia altura podem conversar cochichando a uma distância considerável sem que os outros ouçam.  Fiz isso com meu pai outro dia.

Na entrevista Oscar falou de muitas coisas. Do seu amor ao trabalho, da beleza fundamental das mulheres, de suas obras pelo mundo, etc. Confesso que sou fã da obra desse velhinho, mas quando o jornalista lhe perguntou:

- Você tem uma ligação muito forte com a religião através das belíssimas igrejas que você desenhou, eu te pergunto, você acredita em Deus?- Sem pestanejar ele disse:

- Eu não creio em nada, a ciência explica tudo, não me importo com quem crer, mas me contento com a ciência.

Alguém já escreveu “De que me adianta ganhar o mundo inteiro e perder a minha vida?” é uma referência a alma, para aqueles que crêem em Deus. O problema é que aqueles que crêem, sofrem com a incredulidade dos ateus. E não é só por sua fala, até porque aquele que não conhece é como o que não vê, e, é muitas vezes melhor que aquele que conhecendo faz uma “oração pedrosa” hipócrita, abençoando um dinheiro sujo.

Espero que o mestre da arquitetura tenha tempo e disposição pra conhecer o Senhor das linhas, das curvas, da arquitetura e da ciência. O Senhor da criação. Oscar acaba de completar 102 anos, ele também é um cara pra lá de cem.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

26
nov

O Carona

   Postado por: Rubao   em Papo aberto

Todo mundo já deu ou pegou uma carona. 

Há uns três anos atrás viajando por esse mundão, bem longe daqui encontrei com um cara que segundo ele, eu lhes dei uma carona na minha moto DT 180 Yamaha, preta, 1984. Foi depois de um show em  Anápolis, isso já faz mais de 12 anos, ele tava indo embora, já era tarde, e eu ofereci uma carona. De um determinado ponto do percurso a casa dele pegava outro rumo, ele queria que eu o deixasse ali, mas  fiz questão de levá-lo, claro. Eu o conhecia só de vista, estávamos no mesmo evento e nem foi muita coisa numa cidade onde em 10 minutos você fugia de sua rota e voltava sem complicações. 

Pra mim não foi nada, mas pra ele foi muita coisa, até porque a pé seria uma boa caminhada, mas ele não esqueceu e fez questão relembrar o fato. O Cara hoje não é mais um rapazola, ta bem e  mora nos EUA.

Eu já peguei muita carona e dei também, inclusive pra quem não precisa. E isso é um grilo que eu tenho comigo faz tempo. Acho que desde menino isso me incomoda. Na saída do cursinho, do clube, da igreja a tendência das pessoas sempre foi de passar por aquele irmãozinho que ta no ponto de ônibus, dar uma buzinada e gritar – “Não esquece da reunião de quarta-feira” e ir embora, mas se o irmão que ta indo pro ponto é aquele que  por uma “fatalidade” teve que deixar o carro estragado no estacionamento da igreja e que de repente até tem outro carro em casa, mas não poderia sair em dois, claro, e que tem grana pro taxi e está esperando o próximo. Esse não fica sem carona, mesmo que o percurso aumente em 20 Km, ele irá sempre ouvir um – “Que isso, você faria o mesmo” E faria mesmo.

Outro dia voltando pra casa, contrariando todas as minhas opiniões sobre carona a estranhos, e isso é importante até porque em cidade grande não se deve nem receber carona quanto mais dar, é o fruto da violência desenfreada, mas passando pela saída de Lago Norte sentido EPIA em Brasília, tem um pedaço que não tem nada além de umas chácaras afastadas do lado oposto. Pois bem, um camarada andando vira-se e me da com a mão, eu passei só um pouco, mas freei e ainda dei uma ré.

- Entra aí.

-Com licença, bom dia!

- Tá indo pra onde? – Perguntei esperando que ele me disesse, a Rodoferroviária, que ficava a uns 5 km dali.

- Preciso ir pra Braslândia, mas qualquer lugar tá bom.

- E o que você faz à pé nesse meio de estrada?

- É que eu fui assaltado ontem à noite lá em Sobradinho.

- Sobradinho fica a uns 10Km pra frente, como você veio parar aqui?

- Eu estava vindo da casa dos meus pais e como fui assaltado, fiquei sem nada, passei a noite na rodoviária e hoje cedo saí à pé pela BR aí errei a estrada e entrei pra cá.

- Mas à pé pra Braslândia? Você trabalha de que? Você tem família?

- Eu tinha que fazer alguma coisa, ninguém quis me dar carona, muito menos dinheiro. Eu trabalho numa fazenda depois de Braslândia e tenho uma filha.

Num momento desses, você começa a pensar um monte de coisa, por exemplo: “Esse cara ta com conversa fiada, se ele tentar me assaltar eu devo reagir ou não? Afinal, ele não é tão forte” ou “Porque que eu fui parar pra um estranho?” ou   “Algo esta me lembrando os filmes:  A morte pede carona I e II, De carona com a morte  e Uma carona para o inferno.”. Misericórdia, ta amarrado!!

Eu falei que ele deu sorte, a probabilidade de alguém parar é pouquíssima, sem falar que poucos seguem pro meu destino, que é Taguatinga e é lá que fica a entrada pra Braslândia. Novamente me perguntei “Que que eu to fazendo que não despacho esse cara logo?” O cara tava com sono, com fome, sem grana e chegou a dar umas cochiladas rápidas.

Certo de que estava fazendo a minha boa ação do dia, sem sequer ter perguntado o nome dele, 25 minutos depois, parei e disse: – Aqui é a entrada, é só andar uns 150 m e esperar por ali, você deve conseguir uma carona. Ele me agradeceu, não me assaltou e fui embora vendo-o andando cabisbaixo pelo retrovisor. Cheguei em casa em menos de 5 minutos, já era quase 3h da tarde, almocei rápido e saí novamente, eu tinha uma gravação agendada à tarde, mas não tirava algumas perguntas da minha cabeça: “Porque eu não o trouxe pra almoçar em casa?” ou “Porque não o levei a um restaurante ali perto?” não me custaria mais que R$15,00 um almoço no Giraffas com direito a refrigerante e eu ainda poderia levá-lo à Rodoviária de Taguatinga de onde sai ônibus pra cidade dele, e que não deve ser caro.

Então, sensibilizado e tudo não passou de 15 min, resolvi volta lá onde o deixei disposto a me redimir, mas pra minha decepção ele não estava mais lá. Pense num cara desapontado! Perdi a chance de ser abençoado.

 O sábio Mestre já ensinava a seus seguidores: “Quando vocês dão cobertas ao que passa frio é a mim que vocês estão aquecendo, quando vocês dão comida ao que está faminto é a mim que vocês estão saciando a fome”.

Meu conselho é o seguinte: Não é aconselhável dar carona a estranhos, mas se você tiver esse privilégio, faça-o bem feito.

Um xero pra quem gosta da gente.

Some de mim não

Rubão

16
set

O filho duma mãe

   Postado por: Rubao   em Papo aberto

Ja faz um tempo, talvez uns 30 anos. Eu me deparei com uma situação embaraçosa. Minha mãe por uma razão que não me lembro e acredito sem dúvidas que estava cheia de razão, ficou muito nervosa comigo e disse quase que gritando na frente dos meus amigos

- Rubem, se você me desobedecer eu vou te bater. -Eu respondi na bucha.

- Falar é fácil! – Ela saiu da graça e com razão.

- O Que! Tu ta me desafinado? – Disse ela nervosa. Aí eu tive aquela sacada genial que só se tem uma vez na vida.

- Falar é fácil, mas fazer… é mais fácil ainda.

Todo mundo caiu na risada, inclusive minha mãe, dona Julinha. Foi uma mistura de rebeldia com arrependimento com saída pela tangente que até hoje quem estava na hora não esquece a cena. Já fiz coisas piores. Claro.

Esses dias eu estava lendo o meu livro de história e cai no famoso episódio daquele rapaz mal educado e egoísta que qualquer um de nós poderia trocar o nome dele por alguém conhecido, com as devidas proporções que a história se encaixaria perfeitamente.

A história fala de uma cara que cansou de andar de skate pelos blocos e quadras de Brasília, e apelou geral. Pensou ele “Que surfar no Lago Paranoá que nada, eu quero é ir pra California”. Acho até que foi ele quem inspirou o Lulu Santos, “Garota eu vou pra Califórnia Viver a vida sobre as ondas. Vou ser artista de cinema. O meu destino é ser star …” Na realidade o cara queria surfar na California e de lá partir pro Havai, e foi. Mas pra isso ele teve que armar uma pra cima do coroa. Pense num pai equilibrado financeiramente, aposentado, mas ainda novo cheio de vida, tocando os negócios. Tava tudo certo na família até que o “bicho” resolve aloprar e em pleno almoço de domingo após a EBD ele diz:

- Pai eu vou desistir da Facul, tô com altos planos e sei que posso realizar. Minha ideia é curti a vida enquanto eu sou jovem, olhe pro senhor. Trabalhou a vida inteira e ainda ta ralando e não curtiu nada. Eu quero que o senhor antecipe minha parte dos bens porque eu já tô indo.

- O que? Disse o pai olhando pra ele desapontado.

Eu já li esse texto umas duzentas vezes e nunca vi falar da mãe dele. Ora, se ele ta vivo é porque teve mãe. Se o texto não fala da mãe, não fala que ela era viva, mas também não fala que ela havia falecido, Portanto eu quero acreditar que a mãe, como sempre foi quem mais sofreu com tudo isso.

Ôxe! Qual mãe que tendo dois filhos exemplares, daqueles que todo mundo quer ter pelo menos um, não se desespera quando um deles, o mais novo, se rebela e divide tudo criando um clima estranho até porque pra dar a parte dele, muita coisa teve que ser vendida, fora a satisfação pra familiares e a sociedade, mas o pior mesmo a dor de ver o mundo ganhando a luta conta a família.

O garoto partiu cheio da grana, incessível e determinado. Deixou o cabelo crescer (dreads) e bancava tudo nos festivais de reggae e surf que apareciam inclusive a droga. Mas é isso mesmo, quem houve reggae da maneira errada, vai entrar na maconha mesmo, assim como quem houve rock da maneira errada, vai cair no “Sexo, drogas e rock’n roll “, assim como quem ouve música clássica da maneira errada vai entrar em depressão ou pânico num quarto escuro, assim com quem houve sertaneja da maneira errada vai entrar numas de traído e ainda vai chamar um parceiro pra chorar as mágoas juntos. Sem falar da boemia do sambista, dos “Créus” da galera do funk, etc. Então o problema não era o reggae era ele mesmo. Ufa!!

A gente nem precisa entrar de cara no mundão pra saber que quando a grana vai acabando, os amigos “fiéis” vão sumindo, os sorrisos e abraços apertados ficam raros, os sussurros de “te amo meu amor” se tornam em “acho que foi um engano nossa relação”. Isso é regra. Acabou a grana, acabou a curtição, os amigos, os amores, a cama quente, a comida farta, a razão de viver.

Quebrado de tudo, andando de humilhantes caronas ou a pé e comendo do pior dessa terra inclusive a comida que era jogada pros porcos, a ficha caiu e ele lembrou do papai, da mamãe e do mano. “La em casa eu tinha tudo, minha mãe faz a melhor feijoada do mundo, e o bolo de mandioca. Hum! Na fazenda eu jogava milho de primeira pra engordar nossos porcos, cabras, vacas e até cavalos puro-sangue. Os nossos funcionários nunca precisaram comer restos, eles tinham vida digna. O orgulho me diz pra eu desistir de tudo, mas o coração me manda voltar, vou pedir perdão. Quero ser pelo menos como um dos peões de meu pai. Eu acho que ele vai me dar um emprego.”

Era um fim de tarde lindo de sábado com o sol se pondo num tom avermelhado, como só no acontece no cerrado brasileiro. O pai e a família estavam na fazenda, como faziam todos sábados, quando de repente, do portão principal da fazenda ele viu um homem surgindo na curva da estrada.

Eu acredito que a mãe viu primeiro da janela da cozinha e gritou -“É ele! É meu filho voltando” O pai sabia que era o filhão e correu ao seu encontro. Só um pai de verdade pra cheirar e beijar daquele jeito um cabra tão sujo e fedido. – “Você não vai ser peão aqui coisa nenhuma, nós vamos é dar uma festa” Disse ele, depois de ouvir as desculpas do filho.

O irmão mais velho, mesmo com saudade e acompanhando o sofrimento dos pais não gostou nada. E resmungou pro pai:

- Quem rala aqui sou eu, mas ninguém me da nada, nem um churrasco, nada. Agora esse mala torra tudo e volta com cara de anjo e o senhor da uma festa?

– Meu filho. – Disse o pai. – Teu irmão estava morto e agora ta vivo, tinha se perdido, mas tai ele, nós temos é que festejar mesmo. E sabe de uma coisa filho, tudo isso aqui é teu, você sempre teve, você sempre pôde e ainda pode fazer o que quiser.

Como seria a nossa vida sem o amor do Pai, aquele amor incondicional, que apaga tudo e recomeça do zero, tudo de novo com festa, danças, anéis, roupas novas e sandálias. Não tem coisa mais louca que um pai de braços abertos no portão seguido de um cafuné de mãe. Não tem.

Às vezes eu me vejo como irmão mais velho, tendo tudo e não vendo nada, às vezes me vejo como o mais novo pensando só em mim, achando que o mundo é meu e que eu não preciso de ninguém, mas eu queria mesmo era me ver como o pai, sempre de braços abertos no portão pra abraçar, pra perdoar, pra jogar as mágoas no fundo do mar e esquecer e nunca mais se lembrar delas.

Segundo a história, a vida da família continuou tranqüila e harmoniosa como um riacho seguindo seu rumo molhando a terra, mas que esse cara é um verdadeiro “Filho duma mãe” É. Ou não é?

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

4
ago

Quem canta atrai ou espanta

   Postado por: Rubao   em Melhores Artigos, Papo aberto

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Me contaram uma história e eu creio que seja verdadeira até porque a fonte é rigorosamente confiável. A história fala de um agente penitenciário que tentou suicídio depois de uma movimentação de fuga no presídio que ele trabalhava.

E por falar em suicídio eu tive a curiosidade de saber o que isso representa em números. Veja esses dados: Em 2004 a média nacional era de 4,5 mortes por 100 mil habitantes, no Japão essa média chegou ao absurdo de 25 mortes por 100 mil habitantes. Da até medo. Nem quis me arriscar a ver os dados de hoje.

Recentemente em Taguatinga-DF, um policial militar, depois de uma crise de ciúmes da ex-esposa, atirou nela e depois se suicidou. Os jornais estão cheios de histórias semelhantes tanto que já nem nos incomodamos mais, aceitamos como mais um caso de fraqueza ou de desequilíbrio emocional, coisas dos tempos modernos.

E fica uma pergunta: O que será que leva alguém ao extremo de dizer: “Pra mim, morrer é a única opção” ou “Não existe mais sentido na vida, vou me matar”? Há quem diga que a música acalma a alma, tem até a história de um rei que quando estava atribulado com insônias e perturbações noturnas, mandava chamar um músico, um cabra dos bons. E quando o músico cantava o rei se sentia aliviado e dormia tranquilo. Há um ditado popular que diz: “Quem canta seus males espanta” e pelo jeito, dependendo da música e de quem canta perece que espanta até os males dos outros com é o caso do rei.

Sim, mas a história do agente penitenciário ou carcereiro me chamou atenção, primeiro pelo nome, Raimundo Nonato da Silva, não poderia ser mais maranhense e consequentemente conterrâneo que isso, aliás, poderia se fosse José de Ribamar da Silva com esse nome você acha de doutor a estivador. Mas seu Raimundo intimamente chamado de Mundinho também me chama atenção por sua reputação. Um cabra reconhecido com um bom pai, um bom esposo, um companheiro verdadeiro, e um profissional competente, assim dizem os colegas de trabalho, enfim um sujeito com a dignidade de comer do suor do seu rosto e a devoção de ir ao Maranhão pelo menos de dois em dois anos pra visitar sua gente.

Olhe! Pra ele não tem coisa melhor que reencontrar Painho, mainha, a primaiada, amigos de infância, e parte dos nove irmãos que ainda moram lá em Axixá. Ele aproveita ainda pra rever a pracinha da Matriz onde rolou o primeiro beijo, o Rio Munim de tantos saltos mortais e peladas na prainha e relembrar os tempos de “brincadeira com a rapaziada” como é carinhosamente chamada a participação no batalhão ou simplesmente na dança do Bumba-meu-boi. A cidade é muito conhecida pela expressão artística e cultural do famoso Boi de Axixá, um dos mais tradicionais grupos de sotaque e de orquestra do Maranhão que em 2009 completou 50 anos.

Seu Raimundo trabalhava na segurança de bandidos perigosos e tinha sobre si grande responsabilidade. Ninguém entrava ou saía sem sua ordem. Pois bem, num certo dia chegou dois sujeitos presos acusados de badernagem e foram inclusive violentamente agredidos pelos policiais, esse tipo de prisão é rotina, a diferença é que esses dois sujeitos eram cidadãos de bem, tinham formação e não cometeram nada, nada foi achado ou provado contra eles. Acredita-se que foram fruto de uma armação.

Um fato interessante que clamou a atenção, segundo relatou do próprio Sr. Raimundo. Foi quando os caras já presos e machucados começam a cantar como quem estava feliz, trazendo uma comoção muito grande entre os presos e até mesmo entre os guardas. Seu Raimundo garante que dormiu ouvindo os cânticos e acordou com um barulho muito forte. – “Parecia uma barroada (batida) de frente entre duas carretas. Misteriosamente os cadeados se abriram e as portas de ferro se escancararam deixando toda guarda vulnerável, seria uma fuga em massa como nunca vista na história daquele presídio de segurança máxima”. Disse ele.

Ora, pra um cabra que veio de Axixá não era de se estranhar que ele pensasse que era coisa do “bicho feio” e foi o que ele pensou mesmo. -”Foi um barulho tão danado que eu acordei de um pulo e quase me borrei de medo quando vi todas as portas escancaradas, os presos gritando, uma nuvem de poeira nos corredores… foi um troço de louco”. Disse o carcereiro. Ele ficou tão desesperado com a certeza de que todos fugiriam e que não poderia jamais justificar as fugas e ainda seria lixado, que pegou sua arma e atentou instintivamente contra si próprio querendo se matar. Mas outra coisa interessante aconteceu: Os dois homens que cantavam e que pra ele, tinham poderes, gritaram e correram até ele impedindo que naquele momento houvesse uma tragédia, um suicídio, e mais interessantes ainda, eles não permitiram que nem um preso fugisse. Que coisa hein!

Eu acho que alguém ainda vai fazer um filme dessa história porque ela é realmente impressionante. Tanto que depois, eles, os dois homens presos e seu Raimundo Nonato jantaram juntos e conversaram bastante. Eles foram reconhecidos como inocentes pelo Estado inclusive com um pedido formal de desculpas e a história foi mais longe, os cabras ficaram amigos duma tal maneira… Sim, do tipo irmãos de fé. Ora, se até batizaram os filhos de seu Raimundo.

Se alguém souber mais dessa história me conte. A verdade é que por privacidade os dois rapazes são conhecidos apenas pro Silas e Paulo. Tentei achar mais coisas na internet sobre Raimundo Nonato da Silva, mas assim como José de Ribamar, tinha tanta gente com esse nome que achei até quem não presta, aí eu desisti.
Fato é, cantar, faz bem pra sua alma, pra alma dos outros e por incrível que pareça pode até quebrar cadeias.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

Carlinhos Veiga, Rubão e banda, acabaram de chegar de uma viagem de 10 dias pelos Estados do Maranhão e Paiuí, onde trocaram informações cantando, tocando, fotografando, ouvindo e pesquisando as histórias e culturas (como o Bumba-meu-Boi do Maranhão) do povo nordestino, parte desses brasis.

Pra saber melhor sobre esse trabalho, que tambem foi cultural, confira clicando no link abaixo.

http://www.carlinhosveiga.blogspot.com/

Deixe seu comentário.

*Novidade: Peça já seu Cd da Cia de Jesus, (Reggae a terra, Na Terra Brasilis e Quatro) Edição Especial no quadro: páginas, DISCOGRAFIA. No canto direito do blog.

abraço

10
jun

Dois maços de cheiro verde

   Postado por: Rubao   em Papo aberto

   No interior do sertão brasileiro ainda há muita pobreza, mas nem tudo miséria. Tem algumas regiões em que a escassez e a abundância dividem calçadas, quitandas e até bancos de igrejas. Tem gente que se acha dono até do céu, mas isso é outra história.  

Contaram-me há muito tempo a história de uma senhora já velha que morava num desses interiores do sertão nordestino, a dona Maria das Graças, conhecida como dona Nainha, mulher de vida muito simples, de fogão à lenha, de lamparina, de tamborete e de limitações. Até por que as forças pro trabalho no campo, seu ofício, já não correspondiam mais, as vistas já lhes negavam algumas imagens e a labuta de uma idosa morando sozinha nunca foi fácil.

 

O Filho mais velho de dona Nainha, foi cedo pra cidade grande em busca de emprego, voltou algumas vezes, e, numa dessas levou o único irmão com ele, e nunca mais se soube notícias. Ela evitava falar dos filhos, mas oravam sempre por eles.Dona Nainha vivia do carinho de alguns poucos vizinhos e da venda precária de cheiro verde que ela plantava em um canteiro suspenso no seu quintal, herança do esposo, seu Zé Cândido, o Didinho. Homem trabalhador, mas já falecido de doença de velho mesmo. Ele era bem mais velho que ela, e já havia alguns anos que ela aceitara a vida solitária de viúva com bravura, apesar das lutas.

Eu conheci duas senhoras bem idosas e próximas a mim. Uma era a tia Vitória Rodrigues, conhecida como tia Totora. Ela faleceu ano passado com quase 100 anos. Totora, era uma mulher clara, de olhos azulados, cabelos brancos e lisos e bem baixinha.Uma outra tia minha quando me dava notícias dela, dizia: “A Totora ta tão baixinha, que quando ela anda quase arrasta o nariz no chão” Hehe! Coisas de maranhense. Ela mascou fumo praticamente a vida inteira. Aquele fumo de rolo mesmo, que se vê nos armazéns. Nunca casou, mas criou alguns sobrinhos entre eles minha mãe, que perdeu sua mãe ainda criança e foi morar com a tia.Dizia minha mãe que a Totora quando nova era muito brava e severa, mas quem a conheceu nos últimos anos viu uma velhinha linda, de sorriso gostoso, bochechas rosadas e traços fortes marcados pelas rugas do tempo. Quase sempre sentada na “porta da rua” ela ficava vendo o movimento e acenando pro povo.

Outra velhinha que conheci foi a Dona Genoveva, a Genu. Ela morava com seu único irmão, solteirão e também já velho. A Genu me chamava de Rúbi e eu gostava de sentar no colo dela só pra vê-la raiar, reclamando que eu era pesado, mas logo mandava eu sentar novamente . Uma mulher sem filhos, sem parentes importantes… Mas muito temente a Deus. Logo perdeu seu irmão e ficou só, vivendo da ajuda de irmãos da fé. Ela tinha sempre um sorriso pra dar mostrando seus dentes falhos e uma pele bem enrugara principalmente no rosto, lembrando o chão seco do sertão. Genu era uma senhora baixa de cabelos lisos e ralos, pele queimada de muito sol. Suas orelhas e o nariz pereciam grandes, algo desproporcional. É a Lei da gravidade que não perdoa.

A Genu e a Totora, apesar da pressão do tempo tinham suas belezas, elas eram lindas e importantes na minha vida mesmo sem se conhecerem. E um dia, assim como Genu, a tia Totora, morreu farta de dias.

Quando me lembro da dona Nainha me vem à mente essa duas figuras que conheci de pertinho e me fazem entender melhor a vida dessa mulher velha e sozinha que eu não a conheci pessoalmente, mas que teve uma história de vida tão interessante que eu me vejo na obrigação de partilhar nessas linhas algo sobre essa fantástica mulher do sertão nordestino.

Diz a história que certa feita, dona Nainha teve uma semana de poucas vendas e que nos últimos dias só havia vendido apenas dois maços de cheiro verde. Muito pouco pra quem vivia desse pequeno comércio, mas foi que deu.

Na igreja da cidadesinha, perto de sua casa, na sexta-feira daquela mesma semana, era dia de encerramento da Campanha de Missões. Daquelas pra ajudar no sustento de missionários na África. A comunidade estava envolvida, o povo vestia a melhor roupa, teve muita música, dança e uma mensagem empolgante como deve ser num dia tão importante.

No final, o líder, um jovem pregador, Homem de Deus, fez um apelo desafiador à igreja conclamando que fosse levantada uma oferta de amor aos irmãos missionários na África. Não demorou e um irmão dono de uma frota de caminhões sensibilizado com a luta dos missionários no transporte de mantimentos, pessoas, etc. foi à frente emocionado e disse: – “Querida igreja, estou tocado e quero dizer de bom som que os irmãos lá na África não sofrerão mais com transporte, porque eu vou doar um caminhão. Deus me deu vários e eu vou doar um”. Que coisa linda! Foi um alvoroço, de Glória a Deus! E Aleluia! Outros motivados foram à frente e também fizeram doações significativas, mas já no final, eis que o brulho é quebrado quando uma senhora com dificuldade pra andar atravessa o corredor sob o olhar de todos e o descaso de alguns, e vai até ao gazofilácio. Ela coloca a mão no bolso do vestido  de chita surrado e deposita ali, sua oferta referente à venda de dois maços de cheiro verde na sofrida semana. Ela depositou, olhou pra cima como que agradecendo a Deus por poder ofertar, virou-se, e calada foi embora.

O jovem líder foi á frente e com sabedoria divina chamou a atenção de todos. – “Queridos, como é bonito ver a igreja envolvida em missões, e por isso nós vamos fazer uma singela, porém justa homenagem àquele que se esforçou mais e conseqüentemente fez a maior doação de amor nessa noite. Ele receberá das mãos do presbítero Marcos Dozevan uma simbólica placa. É apenas um gesto de gratidão de nossa igreja pelo empenho dos irmãos. Nela estará escrito: “Parabéns! Primeira Campanha Missionária. Maior oferta” e eu preciso que vocês me ajudem a identificá-lo.

Pronto! Foi uma agitação só. Famílias unidas gritando um nome, outros gritando outro, irmãos com aquela cara de “eu não fiz nada apenas ouvi a voz do coração”, uns diziam – “foi irmão Chico Porca (criador de suínos) que doou parte da venda de sua fazenda”, e um coro mais forte ainda gritava – “irmão Zé Bento, irmão Zé Bento!”. Aquele que doou o caminhão zerado. A política estava instaurada, e inflamava o coração dos clãs na congregação.

O sábio jovem líder pede silêncio e diz: – “Queridos irmãos! Tá todo errado. Vocês não entenderam nada, parece que tenho falado esses dias para os bancos…”. Parou tudo. E ele continuou. – “Quem deu a maior oferta não foi irmão Zé Bento, nem irmão Chico Porca e nem nenhum de nós que estamos aqui. A maior oferta depositada no altar foi da irmã Nainha, aquela viúva que veio por último aqui à frente. Sei que poucos aqui a conhecem ou sequer sabiam seu nome, mas eu a conheço muito bem. Ela até já saiu. Entendam uma coisa queridos; todos nós ofertamos daquilo que nos sobrava, mas ela deu tudo. Aquelas duas moedas era tudo que ela tinha, e tudo é mais que um tanto, é mais que muito. Tudo é tudo. Ela deu a maior oferta”.

Dizem que a velha viúva nunca recebeu aquela placa, até por que, a tal placa não existia mesmo. E, depois daquele dia, não se tem mais notícias de dona Nainha. Acredita-se que pouco tempo depois ela faleceu, mas três coisas marcaram a história de vida daquela amorosa senhora:

1ª Aquela Congregação nunca mais foi a mesma, com relação a ofertar na Casa de Deus.

2ª Dona Nainha com certeza não morreu de fome por ter doado tudo o que tinha.

3ª Sua atitude de amor e fé foi uma lição pra congregação, pra mim e pra todos nós que conhecemos sua história. Sabe-se que essa história ultrapassou as fronteiras dos nossos rincões sendo usada pra edificar vidas nos quatro cantos da terra, e ficou conhecida como “A oferta da viúva pobre”.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

17
mai

Davi derrotou Golias pra se encontrar com Francisco

   Postado por: Rubao   em Papo aberto

p1130094.JPGVocê com certeza já ouviu falar a expressão ”Sal da terra e luz do mundo”.  É Jesus quem assim nos chama. (Mt 5, 13-15). E apôis! A luz não é luz para si mesma, não vem para se iluminar, nem o sal salga a si próprio. Mas a luz é acesa para iluminar a tudo e a todos. A nossa fé em Deus é o sal que tempera e conserva, mas se o sal perder o seu gosto, para nada serve e é jogado fora, se nossa fé não se manifestar em atitudes de cristãos, ela é como um sal que perde o seu sabor e é desprezado e pisado pelos homens.

Você também já deve ter ouvido falar da colonização européia em Pernambuco, principalmente a holandesa, daí a grande quantidade de cabras pelos sertões, de pele clara e olhos pintados de azul celeste, verde esmeralda, furta-cor e até cor de burro fugido. É a coisa mais linda.

Você também já deve ter ouvido falar de um rapaz baixinho que encarou um grandalhão desaforado e derrotou o infeliz com uma badocada acima da venta, no meio do para-choque, ou seja, na testa. Sim, falo do pequeno Davi e do gigante Golias.

Pois eu vou lhe falar de um cabra do interior pernambucano que é tudo isso junto. Ele é baixinho, branquelo, magricelo, tem os lhos pintados que até parece que mudam de cor com a lua, valente de enfrentar cangaceiro, sério que só bode andando de canoa, não tem medo nem de coice de jumento que dirá de cara feia, gosta de chapéu de couro que nem lampião e é conhecido pro Marquinhos Sal da Terra. Homem de um coração sensível que só agulha de radiola (toca-disco), homem de Deus. E eu posso dizer com orgulho que “ele é meu amigo”.

Essa semana recebi um e-mail de Marquinhos (graças a Deus a modernidade alcançou o sertão) me contando uma experiência interessante vivida por ele, e eu conheço dezenas delas, me fazendo repensar sobre meus valores nesse mundo de tantas inversões. E, com a autorização dele, quero repartir essa carta com você. Agüente viu! Se você é fraco que nem eu, é bom pegar um copo d’agua.

A Carta : Deixando Cristo para trás.

Oi, véi!!

Escrevi este texto e gostaria de partilhar com você.

Fique na paz de Cristo.

Na beira da estrada, meio do sertão, entre as cidades pernambucanas de Ibimirim e Floresta, numa parada que fizemos para um café. Vimos este homem, saindo do meio da caatinga, numa bicicleta caindo aos pedaços. Ele havia pedalado sessenta quilômetros, por estradas de areia e pedra – próprias daquela região – Vindo de outra cidade que, como se por ironia do destino se chama Betânia, que no hebraico quer dizer “lar dos pobres”. Francisco era o nome daquele senhor e naquele momento ele chegava ao asfalto, ali onde nós estávamos, visivelmente cansado e tinha mais setenta e oito quilômetros pela frente, que faria numa daquelas camionetes que transportam pessoas pelo sertão. 

- Um cafezinho?

Perguntei de maneira amistosa, ao recém chegado, querendo quebrar o gelo, estendendo o copo de café e o pão com queijo que eu tinha nas mãos. 

- Não, Obrigado!

 Respondeu vacilante e com o olho cumprido para aquela refeição que tomávamos. A sua expressão nos dizia claramente: “Por favor, insista!” Entendi sua hesitação e insisti:

 - Que é isso homem? Venha comer com a gente!

A fome falou mais alto do que a vergonha, aquele cidadão de meia idade e de pele enegrecida pelo causticante sol sertanejo, se agachou e começou a comer.

 Vimos, então, que ele estava com muita fome e por uma razão bem simples, porém quase trágica – ele não havia comido nada naquele dia – isso mesmo, sessenta quilômetros de bicicleta, no meio da caatinga, sem nada na barriga. Ele deglutia cada pedaço do sanduíche de queijo de manteiga com certa ansiedade, como se fosse o último, e sorvia os goles de café com nítida expressão de satisfação. Por sorte, nós havíamos levado o suficiente e ele comeu até se fartar.

 No final, amarramos a bicicleta de Francisco em cima da Kombi, entoamos um hino de louvor à Deus e seguimos até Floresta destino dele, nosso caminho. Na estrada partilhamos da nossa fé, do amor de Deus, da nossa alegria de tê-lo encontrado e de tantas outras amenidades. 

Finalmente, chegamos à Floresta, nos despedimos com uma oração rogando ao Pai uma bênção especial sobre a vida daquele sertanejo de Betânia. Talvez nunca mais o vejamos e certamente nunca mais teremos notícias dele. Mas, daquele momento para cá eu trago um questionamento em meu coração: Quantas vezes, pelas estradas da vida, passamos despercebidos deixando Cristo para trás? “Tive fome e não me destes de comer. Tive sede e não me destes de beber”. 

Que Deus nos torne mais atentos.

Um abraço e que Deus te bendiga,

Marquinhos Sal da Terra

Eu fiquei emocionado pricipalmente pela fato em si, mas Marquinhos foi além e me mandou no final do texto um link do registro desse momento maravilhoso, o encontro do pequeno Davi pernambucano e sua equipe com o sertanejo Francisco.

Eu daqui do conforto da minha sala, olhando pro computador, certo de que na minha geladeira tem pelo menos água fria e outras coisas que semanalmente perdem a validade, muito bem acomodado em minha rotina, saindo pra eventos e programas que me pareçam bem (senão, eu não vou), cheio de amigos prontos me atenderem ao toque do celular, me sinto abençoado que nem  Davi, mas quando vejo o amor desses caras que enfrentam o sertão de caatinga à dentro, o calor intenso e a poeira, sem buscar fama, reconhecimento, cachê, foto em revista, conforto, etc. Só pelo alegria de falar aos sertanejos de um amor maior que o de dar um pedaço de pão com café, de dar uma carona ou fazer uma boa ação. O amor de se entregar ao ponto de morrer por nós, o amor de Cristo. Aí eu me sinto um Golias levando uma pedrada na testa.

Dos cabras que aparecem no vídeo, um foi baderneiro e cachaceiro de amanhecer na calçada, , um escândalo pra família e a sociedade, outro era brabo na peixeira principalmente depois da pinga, outro foi violento de botar revolver na boca de sujeito e bate só pra ver o sangue correr e outro foi braço forte dos homens da máfia pesada do jogo do bicho em São Paulo. Todos transformados. Quero resaltar que nenhum deles vê vantagem nesse “currículo” e nem saí por contando essa parte de suas vidas, eles preferem falar da caminhada sadia e fantástica que é seguir os passos do Grande Mestre. Agora me diga: Pela cara, que é quem? Eu duvido que você adivinhe, mas a resposta fica mais difícil ainda quando eu pergunto: Quem tem o coração mais quebrantado? Eu tenho que engolir seco, passar a mão nos olhos pra desembaraçar (e poder ver pelo menos as teclas) e dar graças a Deus. Por que se Golias é grande, maior é Davi que confia em Deus.

Marquinhos nesse dia curiosamente não estava de chapéu de couro,  mas é o que aparece de boné preto cantando. “Ninguém detém é obra santa”. Com ele, Lalo no violão, Jorge no triangulo, Israel na zabumba, Elias na sanfona, Laércio Lins cantando e Alvinho, que é o que está arrodeando, e, enquanto os cabras cantam ele continua servindo o sertanejo Francisco, de jaqueta azul. Que sena fantástica!

É só clicar: (: www.youtube.com/watch?v=qn6pxAByF3k )

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

30
abr

Cara de pamonha na Festa do Milho

   Postado por: Rubao   em Papo aberto

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Já era quase seis horas da tarde de sábado quando meu telefone tocou. Do outro lado da linha, um sotaque pernambucano, carregado que só mula de garimpeiro e florido de brincadeira.

-Ei macho! Tu vem aqui me ver?

-Ôxe! Não deve ser difícil não, Mas eu não to reconhecendo tua voz.

-E apôis! É Firmino, meu irmão. De Caruaru (PE). Sim, e tô bem aqui perto de tua casa, mas é o seguinte, venha e já traga sua viola que nós estamos aqui só lhe esperando. Óia! vamos tocar daqui a pouco visse.

- Ei cara, o trem não é bagunçado não. Mas me dê 5 minutos. – respondi animado.

Essa não é a primeira vez que esses cabras fazem isso. Da outra vez que vieram, veio junto o zabumbeiro Damião, um sujeito de uma história linda, mas a verdade é que os cabras tinham acabado de chegar, eles só viajaram 2.200 Km de Caruaru a Brasília num monza cinza, não sei que ano, sem ar condicionado e com cinco pessoas dentro e ainda na chagada, bateram o carrro por um descuido a 800m de parar, certamente fruto do cansaço. Eles garantem que boa da parte da viagem vieram cantando.

Tem um camarada pernambucano que mora perto de minha casa, e, é mais amigo deles do que eu, por que eles sempre vão direto pra casa dele, o GG. Pelo apelido, só pode ser gente boa. E é mesmo, esse é o apelido do meu pai. GG tava com um compromisso e eu além de entrar pro grupo assim de cara… (cara-de-pau e de nordestino mesmo, ainda mais como o chapéu de couro que ganhei) teria que levá-los ao local, um prazer. E fomos à Festa do Milho na Ceilândia – DF. A galera já estava esperando o grupo e eu infiltrado ali, achando uma maravilha.

Um caminhão cruzado na rua, barracas com tudo que é coisa boa de milho, outros grupos tocando, muito gente e até bêbum, esses nunca faltam em festa de rua. De repente o cara da organização grita: “E agora com vocês o pessoal lá de Caruaru-PE, é forró pé-de-serra do puro, valendo mesmo, vamos recebê-los com uma salva de palmas”. -  assim foi. Subimos todos de chapéu de couro com zabumba, sanfona, triângulo, violão e baixo. Eu falei pra Jorge, o vocalista e líder, – Não diga pra ninguém que eu sou daqui, ainda mais com essa cara, esse chapéu de couro e essa alpercata, estou me sentindo original com muito orgulho e vou passar batido. - e num é que ainda apareceu um cara que me reconheceu? mas foi só um, os outros diziam: “Fizeram boa viagem?”,  ”Que som original o de vocês”, “Vocês ainda vão tocar né?” Essas coisas.

Mas lá pelo meio da apresentação, o povo atento dançando lá embaixo, tava até rolando um sorteio pra quem dançasse melhor o forró, foi quando Jorge, o vocalista, entre uma música e outra começou a falar com um sotaque ainda mais arrastado que o de Firmino, o sanfoneiro, chamando a atenção de todos: -Tem alguém aí que sabe o que é levar uma pêia? levar uma taca? Pois sim, é levar uma surra. – continuou: – Eu vivi por quase dois anos recebendo ameaças diárias de uma cabra que quando tava atacado encostava o dedo na minha cara e dizia: -To doido pra lhe dar uma pêia pra lhe deixar molim seu crentinho sem vergonha.  - eu nunca fiz nada pra aquele sujeito, mas ele me odiava. Um dia ele me parou num beco e disse - Por que você não reage seu crentinho? eu lhe mato qualquer dia desse. - Eu respondi. – Mata nada,  sabe porque? por que eu tenho uma boa notícia pra você, Jesus te ama! tu tá precisando é de Deus visse! você precisa de conversão. 

Só de ouvir esse testemunho foi me dando uma raiva tão danada do tal valentão que eu lembrei do meu tempo de Tiro de Guerra, quando dei um chega pra lá no sargento que quase joguei ele fora do alambrado numa partida de futsal só por que ele era saliente e a galera botando pilha, gritava lá de fora: – Aroxa Rubão!! e ele era saliente mesmo. - então me perguntei: - como poderia alguém fazer o mal pra Jorge? o cara viajou um dia e meio, pra ficar só dois dias em Brasília e dizer que tem um Deus que ama a todos e que Seu amor é maior que o de um homem pro uma mulher e maior que o amor de uma mãe por seu filho, e, um cabra ficou por quase dois anos atormentando esse mesmo Jorge que tá aqui na minha frente? isso é um infeliz, isso da raiva até em Russel Shedd (um cara mais crente que eu). -mas Jorge continuou falando: -Sabe aquele rapaz que por muito tempo me ameaçou uma pêia e por muitas outras me jurou de morte? ele nunca me bateu, mas hoje ta aqui batendo com vontade no zabumba pra glória de Deus. É Branco, o zabumbeiro ao lado de Rubão.

Ôxe!! eu já sou um senhor de idade, não posso ter certos tipos de choque, não!.. Olhei pro zabumbeiro do meu lado, um cabra branco até no nome, baixinho de olhos pintados da cor de burro fugido. Ele olhou pra mim, fez um bico, balançou a cabeça e sorriu. Eu quase morri. O povo que assistia ficou boquiaberto com a história, e eu… Quando terminamos de tocar, eu puxei o baixinho pro canto e perguntei:

- Que história é essa de querer bater em Jorge?

- Bater não, eu queria é matar, eu tinha raiva de crente, ainda mais que nem ele que não retrucava uma provocação e só vivia falando de Deus. Até por que tinha uns crentes xaropes na região que me entregavam quando eu armava uns roubos ou parada de droga e “os homens” baixavam na área. E como ele era o mais crente, sobrava pra ele.

- Sim, mas, e aí?

- E aí que ele me ganhou pelo testemunho visse! Um dia eu não agüentei e perguntei por que ele não me odiava. Eu estava bêbado, disposto a tudo. Ele olhou pra mim, colocou a mão no meu ombro e disse: -É por que Jesus te ama. Você precisa conhecer o Senhor Jesus, e óia! eu não me asusto contigo não, visse! eu já trabalhei em São Paulo por muitos anos com os homens do jogo do bicho, coisa pesada, mas Deus me mudou. - aí eu perguntei: – E como eu faço? – eu tava muito bêbado, e ele disse: – Quando você melhorar, procure a igreja mais próxima de sua casa. – eu esperei foi nada, fui no mesmo dia. Entrei numa igreja, aí um irmão grandão quis me expulsar de tudo que é geito, eu olhei pra ele e disse: Se eu morrer hoje sem conhecer Jesus a culpa é sua, se eu for pro inferno você será culpado pela minha alma, pela minha desgraça, eu quero conhecer Jesus é hoje. Aí ele deixou eu ficar. E foi alí mesmo que me entreguei. Jorge virou meu pai, acima dele, só Deus.

Eu confesso que fiquei meio incrédulo, não com o poder de Deus, mas que estivesse frente à frente com o mesmo rapaz que odiava o pregador. Jorge me disse que não conhece homem tão temente a Deus.

Conversando com Branco, ele me contou que tinha 25 anos, era casado há mais de 10 e tinha duas filhas.

- Êpa!! Como assim? – retruquei.

 - É isso mesmo. eu tinha 15 e minha esposa tinha 12 quando casamos, hoje ela tá com 22 anos, uma benção. Óia! Eu trabalhei firme ate de madrugada de torneiro mecânico pra entregar uns serviços e poder viajar, deixei as contas pagas, dei 50 conto pra minha esposa, botei 50 no bolso e vim.

Se ele veio só pra contar um pouco de sua história e dizer o quanto Deus é bom mesmo que pra uma só pessoa, então valeu, por que eu fui o primeiro.

Ficamos de nos encontrar na segunda-feira, dia que eles iriam arrumar o carro pra voltar. No domingo eu já tinha compromisso e não poderia acompanhá-los, mas não sei por que eles não me ligaram de volta. Hoje é quarta-feira e imagino que já voltaram. Só tive contato com Branco das 18:30h às 22:30h de sábado, mas não sai da minha memória aquele baixinho de cara gorda com chapéu de couro, olhos claros e avermelhados de sono, encostado no balcão da barraquinha me contado um pouco de sua história enquanto comíamos um bolo de milho com refrigerante. E eu ali, ouvindo aquele bombardeio, de olhos arregalados, duvidando da minha fé e com a minha cara de pamonha.

Um xêro pra quem gosta da gente.

Rubão

17
abr

Carta do Som do Céu

   Postado por: Rubao   em Papo aberto

acampamento-mpc.jpgCARTA DO SOM DO CÉU – MANIFESTO DE ARTISTAS CRISTÃOS
 
Introdução
Nós, músicos, artistas e líderes eclesiásticos, cristãos, vindos das variadas regiões brasileiras, estivemos reunidos entre os dias 6 a 12 de abril de 2009, no Acampamento da Mocidade Para Cristo do Brasil, dias de comemoração dos 25 anos do Som do Céu, para discutir dois temas principais: “A música e os músicos na igreja” e “A igreja como promotora de cultura”.

Agradecemos a Deus pelos dias de comunhão fraterna entre nós e pelo privilégio de ouvi-lo entre as vozes pastorais e proféticas que ecoaram em nosso meio. Reconhecemos que a música cristã tem ocupado um espaço significativo em nossos dias, tanto na igreja como na sociedade em geral. No entanto, observamos que nem sempre essa participação tem sido consistente e coerente com a Palavra de Deus – nosso referencial maior – nem rendido glórias ao Senhor da Igreja. Desejamos, portanto, apresentar à Igreja brasileira a “Carta do Som do Céu”, sintetizada em 25 pontos, que resume nossas inquietações e propõe ações práticas à Igreja de Cristo Jesus, nesse princípio de século XXI:

1. O artista cristão deve desenvolver o seu dom criativo e submetê-lo exclusivamente aos valores da Palavra de Deus;

2. Cremos que a arte, na perspectiva da graça comum, é um presente dos céus a toda humanidade e não está restrita aos cristãos;

3. Desejamos que haja coerência entre a vida, o ministério e a profissão do artista cristão, cujo discurso deve estar aliado à sua prática;

4. Esperamos que o artista cristão busque servir a Deus e à sociedade com excelência e integridade, dedicando-se ao desenvolvimento dos talentos e dos dons recebidos do alto;

5. A igreja precisa estar atenta ao artista cristão como parte do rebanho de Deus e dar a ele a atenção devida, despida de preconceitos, e oferecer-lhe pastoreio e discipulado, objetivando a sua formação espiritual e ética;

6. Esperamos que o artista cristão esteja envolvido em uma igreja local, servindo-a e amando-a como Corpo de Cristo. Deve ser rejeitada toda e qualquer tentativa de desenvolvimento de uma fé individualista e distante da comunidade;

7. Reafirmamos que a elaboração de textos e letras deve ter embasamento nos valores da Palavra de Deus;

8. Comprometemo-nos a dedicar atenção e reflexão às canções que são introduzidas no culto de adoração e nas demais atividades da igreja, buscando um repertório equilibrado e consciente e evitando, de todas as formas, que heresias e desvios teológicos adentrem sutilmente em nossas comunidades;

9. As igrejas, as instituições de ensino teológico e os artistas cristãos devem combater o ensinamento equivocado e amplamente difundido de que louvor e adoração restringem-se à musica, ensinando, por demonstração e exemplo, que se trata de um estilo de vida que envolve todas as áreas da nossa existência e que a música, assim como outras formas de arte, é expressão legítima de louvor e adoração;

10. A igreja deve agir como facilitadora na adoração e abrir espaço para que todos expressem seu louvor a Deus;

11. Esperamos que o músico cristão busque e desenvolva a santidade, vivendo uma vida piedosa, tanto no serviço prestado a Deus na igreja, quanto fora dela, em sua atividade profissional;

12. Rejeitamos a dicotomia que faz separação entre o sagrado e o secular e cria espaços estanques na vida do cristão. O Senhor Jesus é soberano e governa todas as instâncias da vida, e, por isso, devemos somente a ele a nossa fidelidade, agradando-o em tudo e rejeitando tão-somente o que ofende a sua glória;

13. A Igreja não se pode esquivar de sua responsabilidade diante da cultura na qual está inserida; deve mentoriar a reflexão e a prática de uma teologia de arte e cultura;

14. Incentivamos as igrejas a abrir suas dependências para a realização de eventos culturais como exposições, mostras, cursos, saraus e outras atividades visando à educação, à divulgação e à aproximação da sociedade;

15. Mesmo entendendo que todo trabalho na igreja é voluntário, podemos honrar com sustento ou remuneração aqueles que se dedicam ao ministério musical, se a comunidade disponibiliza de recursos para tal;

16. Entendemos que nossa arte deve encarnar uma voz profética e manifestar em seu conteúdo os valores do Reino;

17. Recomendamos que as igrejas promovam encontros de reflexão sobre a utilização das artes no Reino de Deus, capacitando os artistas para a realização de seu trabalho;

18. Incentivamos os músicos a expressar em sua arte a beleza de Deus por meio de uma contextualização e diversidade musical;

19. Reconhecemos o caráter essencialmente transformador e questionador da nossa arte e não cremos que ela deva estar a serviço do mercado;

20. Muito embora os artistas cristãos não se devam render aos senhores da mídia, tornando-se reféns desta, podem utilizar de maneira ética os meios de comunicação como canal para a divulgação de sua arte, proclamando, assim, o Reino de Deus;

21. No que se refere ao relacionamento entre os músicos e a liderança eclesiástica, encorajamos o diálogo, o respeito e o reconhecimento mútuo de seus ministérios como algo dado por Deus;

22. Incentivamos que os artistas cristãos busquem perante o Estado e a iniciativa privada recursos para a promoção de sua arte por meio de leis de incentivo à cultura, editais para financiamento de projetos culturais etc.

23. Encorajamos as igrejas a investir na educação e na formação de artistas;

24. Propomos que as igrejas e as instituições de ensino teológico incentivem as diversas manifestações artísticas e não somente a área musical;

25. Compreendemos que o ofício de artista é legítimo como tantos outros, podendo ser exercido pelo artista cristão no mercado de trabalho e devendo ser apoiado e incentivado pelas comunidades cristãs.

São Sebastião das Águas Claras, 9 de abril de 2009.
Assinam:

Debatedores:
Aristeu de Oliveira Pires Junior – Canela (RS)
Carlinhos Veiga – Brasília (DF)
Denise Bahiense – Rio de Janeiro (RJ)
Erlon de Oliveira – Belo Horizonte (MG)
Gladir Cabral – Florianópolis (SC)
João Alexandre Silveira – Campinas (SP)
Jorge Camargo – São Paulo (SP)
Jorge Redher – São Paulo (SP)
Marcos André Fernandes – Garanhuns (PE)
Marlene F. Vasques – Goiânia (GO)
Nelson Marialva Bomilcar – São Paulo (SP)
Paulo César da Silva – São José dos Campos (SP)
Romero Fonseca – Goiânia (GO)
Rubão Rodrigues Lima – Brasília (DF)
Sérgio Pereira – Ribeirão Preto (SP)
Wesley Vasques – Goiânia (GO)

Demais participantes:
Alfredo de Barros Pereira – Brasília (DF)
Andréa Laís Barros Santos – Maceió (AL)
Aracy Clarkson Ferreira – Rio de Janeiro (RJ)
Armando de Oliveira – Salvador (BA)
Bruno Leonardo Alves da Fonsêca – Garanhuns (PE)
Caio César da Silva Pereira – Brasília (DF)
Carolina Gama – Campinas (SP)
Carolina Lage Gualberto – Belo Horizonte (MG)
Cláudia Barbosa de Souza Feitoza – Brasília (DF)
Danielle Martins Lima – (MG)
Davi Julião – São Paulo (SP)
Dora Bahiense – Florianópolis (SC)
Elecy Messias de Oliveira – Goiânia (GO)
Fábio Cândido de Jesus – Anápolis (GO)
Felipe de Freitas Hermsdorff Vellozo – Niterói (RJ)
Francely F. Barbosa – Anápolis (GO)
Glauber Plaça – São Paulo (SP)
Gleice de Oliveira Vicente Cantalice – Maceió (AL)
Guilherme e Alessandra Fontes Vilela Carvalho – Belo Horizonte (MG)
Guilherme Praxedes – Belo Horizonte (MG)
Hadassa de Moraes Alves – Viçosa (MG)
Irineu Santos Junior – Belo Horizonte (MG)
Isabella Sarom Sabino Honorato – Anápolis (GO)
Ismael S. Rattis – Brasília (DF)
João Carlos Pereira Junior – Vitória (ES)
Jocemar “Mazinho” Filho – Recife (PE)
Jônatas de Souza Reis – Belo Horizonte (MG)
Karen Bomilcar – São Paulo (SP)
Leonardo de Azeredo Peclát – Goiânia (GO)
Leonardo Rodrigues Barbosa – Brasília (DF)
Lidiane Dutra da Silva – (MA)
Marcel Martins Serafim – Jacareí (SP)
Marcelo Gualberto da Silva – Belo Horizonte (MG)
Márcia Pacheco Foizer – Brasília (DF)
Marilda Redher – São Paulo (SP)
Marivone Lobo – Ribeirão Preto (SP)
Pedro Barbosa de Souza Feitoza – Brasília (DF)
Rafael Ribeiro Santos – São Paulo (SP)
Renata Telha Ferreira – Rio de Janeiro (RJ)
Roberto Cândido de Barros – Curitiba (PR)
Selma de Oliveira Nogueira – São Paulo (SP)
Silvestre Moysés Loyolla Kuhlmann – São Paulo (SP)
Stênio Március – São Paulo (SP)
Talita Estrela R. Martins – Belo Horizonte (MG)
Vânia Sathler Lage – Belo Horizonte (MG)
Walma Oliveira – Rio de Janeiro (RJ)

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